SEMANÁRIO

Edições ISKRA lançam A revolução e o negro: um diálogo entre os negros do mundo

Paula Almeida

Edições ISKRA lançam A revolução e o negro: um diálogo entre os negros do mundo

Paula Almeida

Vem aí a segunda edição de A revolução e o negro – textos do trotskismo sobre a questão negra, com escritos de Leon Trótski, C. L. R. James, George Breitman, entre outros, uma contribuição das Edições Iskra, do Esquerda Diário e do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) aos debates em torno do marxismo e da questão negra.

A primeira edição de A revolução e o negro – textos do trotskismo sobre a questão negra saiu em novembro de 2015. Seja devido à carência de publicações dedicadas ao tema, seja devido à qualidade e ao ineditismo dos textos apresentados, o sucesso foi tamanho que, pouco meses depois, em abril de 2016, foi preciso nova impressão. Se, naquele momento, ainda que por diferentes razões, este já era um livro necessário, hoje se faz ainda mais urgente. Ou, como nota Flávio Gomes em seu texto da quarta capa: “uma iniciativa extraordinariamente necessária”.

Na nova edição preparada pelas Edições Iskra, o leitor vai encontrar 13 textos adicionais, muitos deles inéditos em português, e um projeto gráfico reformulado. A organização de Marcelo Pablito, Daniel Alfonso, responsáveis pela primeira edição, e Letícia Parks, reforço da que agora se publica, também recebeu novo tratamento, reunindo em cinco blocos temáticos um debate que ocorria simultaneamente na África do Sul e nos Estados Unidos da América, envolvendo um dos mais importantes revolucionários da história, Leon Trótski.

Conhecidos do leitor são os cincos textos que, podemos dizer, formam a espinha dorsal do livro e da qual os acréscimos se desdobram aprofundando e documentando as teorias esboçadas. O carro-chefe, do qual os organizadores emprestaram o título, é um artigo brilhante de C. L. R. James: “A revolução e o negro”, dedicado a tratar do papel desempenhado por negras e negros nas revoluções burguesas e na Guerra Civil dos EUA, com uma reflexão original apontando os limites que certas propostas encontraram ao se depararem com a questão da escravidão e do racismo. Há ainda mais dois textos do marxista caribenho já conhecidos – como bem lembra Sean Purdy em sua orelha, são corajosos: “Por que os negros devem se opor à guerra” e “Imperialismo na África”, além da novidade: “O lugar do negro é na vanguarda”. De Geroge Breitman, “Quando surgiu o preconceito contra o negro” localiza o nascimento do racismo no marco do surgimento do próprio capitalismo. Por fim “Sobre as teses sul-africanas”, de Leon Trótski, demonstra a indissociabilidade das lutas pelo direito à guerra e contra o domínio britânico. (O único a receber nova tradução, direta do russo, que tenho o orgulho de assinar.)

Entre as muitas novidades, gostaria de chamar a atenção do leitor para dois blocos em especial, intitulados “Diálogos negros”, um deles “nos Estados Unidos”, o outro “na África do Sul”.

O primeiro traz quatro atas que compõem a importante discussão de Leon Trótski com representantes do Partido de Trabalhadores Socialistas (o SWP, Socialist Work Party, em inglês), entre eles C. L. R. James, Arne Swabeck, Pierre Frank, Charles Curtiss e Lankin Sol, a respeito do direito à autodeterminação dos povos negros e da constituição de uma organização própria nos EUA. Já no título de cada conversa oferece-se uma pista do que pode esperar o leitor: “A questão negra nos Estados Unidos da América”, “A autodeterminação dos negros dos EUA”, “Uma organização de negros” e “Planos para uma organização de negros”. [1]

Impressionam a relação desses debates com o conjunto das resoluções do IV Congresso da III Internacional Comunista – outra importante contribuição ao campo do marxismo e a questão negra oferecida por essa segunda edição de A revolução e o negro –, bem como a atualidade de seu conteúdo, ainda mais em um momento que, como bem lembram Pablito e Alfonso na “Introdução” ao livro, é urgente a construção de um partido revolucionário, em nosso país e internacionalmente. Além disso, refletem dois pontos importantes da tradição bolchevique: a batalha para que os negros pudessem se filiar aos sindicatos e a necessidade de lutar pela igualdade salarial entre pessoas negras e brancas.

A seção dedicada aos diálogos sul-africanos é formada por uma interessante mescla de documentos (atas e cartas). Fazem parte de um profícuo intercâmbio epistolar ocorrido de 1932 a 1935 entre o revolucionário russo e a Liga Comunista da África do Sul. Lemos uma amistosa troca de cartas entre L. Trótski e T. W. Thibedi, completada por uma de Trótski endereçada ao Secretariado Internacional e outra recebida pela Liga Comunista dos Estados Unidos, assinada por Thibedi e mais 24 membros. Nela, os revolucionários sul-africanos propõem fundar a Oposição de Esquerda na África do Sul, solicitam o envio de dezenas de edições do periódico The militant [O militante], publicado pelo SWP, e elogiam a posição crítica de Trótski em relação ao processo de burocratização em curso na III Internacional Comunista. A essa altura, Trótski se encontrava refugiado em Prinkipo, na Turquia. Pouco mais tarde, fixaria-se no México, único país do mundo a aceitá-lo.

É notável que, naqueles e nos anos seguintes, o trotskismo adquiriria grande influência junto aos intelectuais de Nova York, nos EUA, que orbitavam em torno das discussões do modernismo. Trótski era uma referência central no debate artístico dessa cidade e tinha relação com muitos intelectuais e revistas. Em suas colocações, sempre destacava como eixo a construção do partido nas camadas mais exploradas e oprimidas da sociedade.

Digno de destaque é também o fato de que, nos anos de 1930 e 1940, a Oposição de Esquerda exerceu impacto substancial na política da África do Sul e também internacionalmente, já que quadros ali formados tiveram atuação significativa na China, na Índia, nos EUA e na Grã-Bretanha. Era comum, então, que as organizações políticas, a fim de se construir como corrente, reunissem-se em “clubes”. Os registros disponíveis revelam uma vida militante ativa. Exemplo disso são os rascunhos de tese da Liga Comunista da África do Sul, que atuou de 1933 a 1935 sob o nome de “Clube Lênin”, destacando-se na esquerda intelectual da Cidade do Cabo (África do Sul). Finaliza o conjunto justamente os comentários de Trótski às teses do grupo baseado em Joanesburgo. A carta foi escrita em 1933 e um extrato seu foi publicado no número 44 do periódico Biulleten Oppozítsi [Boletim da Oposição], de julho de 1935, em coluna mantida por ele e intitulada “Da vida da esquerda internacional”, onde publicava extratos de suas conversas com partidos e organizações de distintos pontos do planeta.

Dessas atas e correspondências, apenas uma porção do rico material que forma o caprichado volume, emerge um L. Trótski atendendo às solicitações de revolucionários que lhe procuravam com uma demanda determinada: a questão negra e a revolução. Encontravam um camarada disposto a colaborar com os que lhe procuravam para debater a premente questão: o que fazer? sempre alertando sobre a limitação geográfica que a distância lhes impunha, remarcando a responsabilidade de suas análises e opiniões baseadas no quadro que lhe pintavam e insistindo que seu interesse residia nas massas trabalhadores e não em pequenos grupos de intelectuais. As demandas que vinham dos distintos continentes – ainda quando se encontrava isolado em Prinkipo, na Turquia, até sua temporada mexicana – solicitavam opiniões, experiências, direção, enfim, as palavras do experimentado dirigente bolchevique a fim de lutar pela revolução e formar, integrar, a Oposição de Esquerda. Do conjunto, sobressai uma inquietação: não podiam concordar com as novas diretrizes assumidas pela III Internacional, ela mesma estalinizada e estalinizando, por sua vez, os Partidos Comunistas ao redor do globo.

Leon Trótski respondia, então, uma demanda do seu tempo. Essa demanda que sendo de todos os tempos é urgente desde sempre e até o nosso tempo presente: a demanda fundamental da emancipação do oprimido.

Assim diz ele em uma de suas intervenções constantes da ata “A questão negra nos Estados Unidos da América”:

Acredito que, pelo inédito atraso político e teórico e o inédito avanço econômico, o despertar da classe trabalhadora vai se desenvolver rapidamente. A velha cobertura ideológica vai explodir, todas as questões surgirão de uma só vez e, como o país está tão economicamente maduro, a adaptação do nível político e teórico ao nível econômico vai ser alcançada muito rapidamente. É possível, portanto, que os negros se tornem o setor mais avançado. Nós já temos um exemplo parecido, na Rússia. Os russos são os negros da Europa. É bem provável que por meio da autodeterminação os negros avancem a passos largos para a ditadura do proletariado, à frente do grande bloco de trabalhadores brancos. Então, eles estarão na vanguarda. Estou absolutamente convencido de que, de qualquer forma, lutarão melhor que os trabalhadores brancos. Isso, no entanto, só pode acontecer se o Partido Comunista levar adiante uma luta inflexível e implacável, não contra as supostas possessões nacionais dos negros, mas contra os preconceitos colossais dos trabalhadores brancos, sem dar-lhes nenhuma concessão. [2]

“Os russos são os negros da Europa”. Guardadas as devidas proporções, contidas, ademais, na própria sentença, pode-se dizer que Trótski tinha razão: devido à posição de seu país em relação ao centro do capitalismo, à servidão da gleba e à tirania do Império Russo, os explorados da “mãe Rússia”, de fato, tanto na questão nacional e agrária quanto na relação com o mundo europeu, desempenhavam papel semelhante aos mais explorados das colônias. Oprimidos e escravizados por uma classe possuidora tirânica e predatória, mandatária e imitadora de uma classe dominante estrangeira imperialista, suportando em seus ombros a avidez pelo acúmulo de seus senhores, em troca do pão de cada dia e comendo o pão que o diabo amassou, não importa se feito do trigo ou do centeio, estavam sujeitos a uma dupla exploração. E foram esses mesmos secularmente explorados que se levantaram – primeiro, as mulheres – e dirigiram a maior revolução proletária que o mundo já conheceu, aquela que abalou as estruturas da ordem e mudou as feições do século XX.

O período dessas conversas dos revolucionários sul-africanos e estadunidenses com o revolucionário russo situa-se nos anos de 1930. Como se sabe, são os anos em que a perseguição stalinista aos membros da Oposição de Esquerda, aos antigos bolcheviques, incluindo aliados, às ditas vanguardas bolcheviques e, é preciso dizer, às vanguardas artísticas, assume sua faceta mais violenta. Por ser ele mesmo quem era – “o número dois” da temida Revolução Russa, dirigente do Exército Vermelho, denunciador implacável da burocratização do Estado soviético e um dos que mais frontalmente se opunham ao fascismo nascente –, encontrou lugar apenas no México, e daí pôs-se a trabalhar. À sua maneira, A revolução e o negro é resultado disso tudo, ou seja, dos fios de continuidade que nos conectam a um debate ocorrido já há mais de 80 anos, os quais, interligados e interligando-se, chegam ao Brasil, país cujas demandas, como nos mostram Pablito, Alfonso e Parks tanto na seleção e arranjo geral quanto nos textos que escreveram especialmente para a segunda edição, são tão similares. Por tudo isso é um diálogo entre os negros do mundo, no mais amplo sentido do termo, que me permito aqui empregar.

A revolução e o negro é, como bem disse Renata Gonçalves em seu texto de quarta capa, “um livro para inspirar nossas primaveras negras!”. Em suas páginas, o leitor vai encontrar um instigante debate feito pelos e para os negros do mundo. Encontrará, ainda, uma atividade política intensa, debates em torno da tática e a estratégia para a revolução socialista internacional, o exercício teórico-prático de pensar um modo de vida diferente, uma organização social que não imponha esta demanda, antes, que nos liberte dela, ou seja, por um mundo em que não tenhamos que lutar a luta pelo nosso elementar direito de existir.

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Serviço

A revolução e o negro – textos do trotskismo sobre a questão negra

Edições Iskra, novembro/2019

Organização: Marcello Pablito, Daniel Alfonso e Letícia Parks

Preço promocional de pré-lançamento: R$ 25,00

Onde comprar:

Com as Edições Iskra no Facebook: https://www.facebook.com/EdicoesISKRA/

e nos eventos:

RJ:https://www.facebook.com/events/2824917174193983/Retour ligne automatique
SP: https://www.facebook.com/events/528654907714098/

Saiba mais sobre o livro e confira a agenda de lançamentos: http://www.esquerdadiario.com.br/PRE-LANCAMENTO-segunda-edicao-de-A-revolucao-e-o-negro-Confira-a-agenda-de-lancamentos
Leia a “Introdução” de Pablito e Alfonso: https://www.esquerdadiario.com.br/PRE-LANCAMENTO-Leia-a-Introducao-a-segunda-edicao-de-A-revolucao-e-o-negroe “As mulheres africanas na linha de frente da luta anti-apartheid” http://esquerdadiario.com.br/As-mulheres-africanas-na-linha-de-frente-da-luta-anti-apartheid, de Parks.

veja todos os artigos desta edição
FOOTNOTES

[1Esta publicada por nós em especial deste [Ideias de Esquerda dedicado a Leon Trótski→http://www.esquerdadiario.com.br/25-08-2019].

[2M. Pablito, D. Alfonso, L. Parks (org.), A revolução e o negro, Edições Iskra, 2019, p. 103.
CATEGORÍAS

[Dia Nacional da Consciência Negra]   /   [História do povo negro]   /   [Teoria]   /   [Negr@s]

Paula Almeida

tradutora; doutora em Literatura e Cultura Russas pela Universidade de São Paulo (USP) e editora nas Edições Iskra.
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