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Editorial MRT | 2/10: derrotar Bolsonaro com um programa operário para que os capitalistas paguem pela crise

Após os atos do dia 7 de setembro que mostraram uma extrema-direita organizada nas ruas, vimos um aumento dos setores burgueses e da direita que se colocam de palavra pelo impeachment Bolsonaro. Neste cenário é preciso discutir qual política a esquerda precisa ter para derrotar não somente Bolsonaro, mas todos os ataques.

Diana AssunçãoSão Paulo | @dianaassuncaoED

segunda-feira 20 de setembro | Edição do dia

Os atos do dia 7 de setembro mostraram uma extrema-direita organizada nas ruas. Essa é uma força que, apesar do recuo de Bolsonaro com a carta escrita pelo ex-presidente golpista Michel Temer, veio para ficar e não será derrotada facilmente e nem pela via meramente eleitoral. Se essa demonstração de forças bolsonarista não foi capaz de mudar a correlação de forças e Lula segue se fortalecendo como alternativa para 2022, isso está longe de expressar qualquer tipo de saída forte para a crise que passa o país, ressaltando, mais uma vez, uma forte crise orgânica no Brasil, demonstrando que o descontentamento com os partidos e as instituições continua sendo um elemento fundamental da situação política.

Isso se dá no marco de um aprofundamento da crise econômica internacional e seus efeitos no Brasil, que coloca uma situação de ataques e retiradas de direito onde os trabalhadores sofrem com o aumento da inflação, o desemprego cresce, a fome atinge a população pobre e uma série de reformas antioperárias, aumento da superexploração por parte da burguesia contra a classe trabalhadora e ataques contra os indígenas estão em curso. Esses efeitos da crise descarregados nas nossas costas contam com o apoio da direita que busca se apresentar como oposição a Bolsonaro, como vimos no fracassado ato convocado pelo MBL no dia 12 de setembro.

Enquanto isso, ainda que surjam diversos focos de resistência em lutas e greves parciais, assim como a forte luta dos povos indígenas em Brasília e pelo país, as grandes centrais sindicais como a CUT e a CTB permanecem em trégua com o governo, se negando a unificar e coordenar esses processos de luta. As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, junto a partidos burgueses como o PSB, PDT e Rede apresentam um calendário o mais espaçado possível para evitar que se desenvolva qualquer tipo de plano de luta concreto que pudesse unificar as lutas em curso com as demandas de enfrentamento ao governo Bolsonaro-Mourão. As direções da próxima manifestação no dia 2 de outubro já tem como intuito ampliar o máximo possível seus convocantes incorporando setores burgueses e da direita para fortalecer o pedido de impeachment, como continuidade da linha de boa parte da esquerda que vem privilegiando buscar esse tipo de unidade ao invés da necessária unidade da classe trabalhadora. Essa é a política da maioria da esquerda como o PSOL, PSTU, PCB e UP (mesmo o PCO assinou o primeiro pedido de “impeachment popular”, apesar de que o recente “Superimpeachment” não o fez).

Em seu editorial o PSTU chega a dizer que a suposta "unidade de ação" contra Bolsonaro não pode vetar a participação de ninguém, "nem mesmo do MBL" e demais partidos burgueses que se oponham a Bolsonaro (em referência provável ao PSDB, cuja participação nos atos em SP o PSTU defendeu). Alguém pode acreditar que os neoliberais do MBL e do PSDB, que aprovam todas as contrarreformas antioperárias do governo, entrariam numa "unidade de ação", que corresponde sempre à luta de classes na concepção marxista, contra os mesmos ataques de Bolsonaro e Guedes? Ou o PSTU considera "ação" a entrega de papéis como o "pedido de superimpeachment", feito com Joice Hasselman e Kim Kataguiri? Esses são nossos inimigos. Odeiam os trabalhadores e, no quesito econômico, estão em pleno acordo com Bolsonaro. É preciso enfrentá-los unificando as fileiras operárias, combatendo as burocracias sindicais, e não dividindo os trabalhadores em nome de "ampliar" a subordinação da esquerda aos partidos do regime. O PSTU, em especial, dirige muitos sindicatos e deveria estar colocando a CSP-Conlutas, da qual somos parte, a serviço da aliança dos trabalhadores contra todos os atores do regime.

Justamente por isso é preciso abrir um debate urgente na esquerda sobre qual política e qual programa devemos levantar diante da crise no país. Já está mais do que claro que a agenda de atos uma vez por mês que essas direções vem propondo desde a metade do ano são parte de uma estratégia que busca subordinar a luta imediata dos trabalhadores e da juventude às eleições de 2022 e à candidatura de Lula. Particularmente no dia 7, quando se tratava de fazer uma forte manifestação, nada foi efetivamente organizado e alguns setores como Zé Dirceu do PT e Marcelo Freixo do PSB batalharam para desmobilizar diretamente, o que só contribui para a desmoralização dos setores que querem lutar e se enfrentar com os ataques. Agora, a entrada com mais peso da direita na oposição ao governo Bolsonaro coloca também toda a esquerda subordinada a uma agenda burguesa que pode chegar a falar de impeachment com o objetivo de garantir as melhores condições para a continuidade dos ataques e se posicionar melhor eleitoralmente para 2022. Como podemos considerar que são nossos aliados aqueles que estão junto com Bolsonaro nos atacando?

É por isso que é urgente a conformação de um pólo classista e antiburocrático que reúna a esquerda, seus sindicatos, parlamentares para apresentar uma política de independência de classe e um programa operário para enfrentar a crise. Um programa operário que poderia começar levantando com muita força o reajuste automático dos salários de acordo com a inflação e contra o desemprego de 14% lutar por emprego para todos com a repartição das horas de trabalho entre empregados e desempregados, em uma forte campanha nacional que contribuísse também dessa forma para unificar os processos de luta que estão em curso e demonstrar que este programa é incompatível com a aliança com burgueses e partidos de direita que atuam permanentemente para aumentar a exploração contra a classe trabalhadora. Exigir o congelamento do preço dos alimentos e das contas de água, luz, gás com os valores anteriores aos altos índices de inflação e ao mesmo tempo lutar por uma forte unidade entre empregados e desempregados, enfrentando também o trabalho precário que atinge majoritariamente mulheres e negros em nosso país além da juventude.

Nas próximas manifestações do dia 2 de outubro acreditamos que seria um passo para a conformação desse pólo a construção de blocos classistas unitários da esquerda defendendo Fora Bolsonaro e Mourão e um programa operário contra a crise, que inclua a anulação de todas as reformas e ataques contra os trabalhadores e o povo pobre, entendendo que nossos inimigos são Bolsonaro, Mourão e também a direita tradicional e todas as instituições desse regime golpista, bem como os empresários e capitalistas que lucram com nosso suor e sangue. Por isso fazemos um forte chamado às correntes de esquerda a romperem com a política de alianças com a direita e conformar um bloco com este conteúdo, no qual debateremos as diferenças em relação ao programa frente a crise política, uma vez que a maioria da esquerda está junto com setores da direita, além do PT e PCdoB, defendendo o impeachment de Bolsonaro que colocaria Mourão no poder, uma política para resguardar e salvar este regime apodrecido, enquanto nós consideramos que seria necessário como parte da nossa luta impor uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana onde a população pudesse debater e decidir os grandes problemas que atingem as massas trabalhadoras e pobres do país avançando em sua auto-organização para levar adiante medidas como o não pagamento da dívida pública, a anulação de todas as reformas antioperárias e uma reforma agrária radical que certamente teriam forte resistência dos capitalistas, e neste caminho seria possível avançar na luta por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

Nós do Esquerda Diário e do MRT, com a combativa juventude Faísca que esteve lado a lado nos processos de lutas operárias e indígenas do último período e estará na Greve Global pelo Clima no próximo dia 24, como parte de um movimento internacional de juventude que defende que “os capitalista e seus governos destroem o planeta, destruamos o capitalismo”, chamamos a defender essa política rumo ao dia 2 de outubro batalhando para que sejam os capitalistas que paguem pela crise.




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