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Debates | Entusiastas do reformismo latino americano: como fica o stalinismo frente às eleições de Petro?

Frente às eleições colombianas que elegeram Petro e Francia, candidatos da centro-esquerda, após diversos anos de governos da direita tradicional e diretamente pró imperialista, e após duas gigantescas rebeliões no país, em 2019 e 2021, grande parte da esquerda brasileira viu nessa alternativa uma saída "progressista" à crise. Nesse aspecto, também estão inclusos setores do stalinismo que se reivindicam da "esquerda radical", como Jones Manoel (PCB) e Leonardo Péricles (PCR/UP). Esse artigo debate e polemiza com algumas posições iniciais desses setores acerca da vitória de Petro, mostrando que, na verdade, o stalinismo acaba por cair em um apoio a governos burgueses que contém a luta de classes. Isso também se expressa em seus programas e de seus partidos em suas candidaturas, onde buscamos também debater em outros artigos.

terça-feira 28 de junho | Edição do dia

No início desta semana, a notícia de que o candidato de centro-esquerda Gustavo Petro venceu as eleições colombianas contra o reacionário Rodolfo Hernández excitou grandes setores da política brasileira (e internacional também, como o Blinken, secretário de Biden), desde Lula e Renan Calheiros à setores da dita “esquerda radical”, como Jones Manoel (PCB) e Leonardo Péricles (UP/PCR). Neste artigo iremos polemizar com essas posições de ambos, que se pintam de vermelho para defender o socialismo, porém acabam por capitular à defesa de governos burgueses, que são fruto de um processo de luta de classes desviado por suas direções conciliadoras.

Primeiramente, a derrota de Rodolfo Hernández expressa um rechaço à direita pró ianque que foi central em aplicar todos os ataques e ajustes do FMI e do imperialismo contra a classe trabalhadora e a população pobre da Colômbia em meio a uma crise que cada vez mais se intensifica. A derrota da direita em um dos países com mais bases militares dos EUA é fruto de duas rebeliões populares que abalaram as estruturas do regime burguês: a de 2019 e a de 2021 contra o então presidente Ivan Duque. Essas rebeliões que mostraram a força dos trabalhadores e da juventude, entretanto, foram em direção a uma saída independente dos trabalhadores que questionasse as bases do regime, com a imposição de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, por exemplo? Ou foram desviadas por suas direções para a via eleitoral e a defesa de um programa burguês com a cara lavada?

Jones Manoel afirma que a eleição de Petro foi a “expressão eleitoral da acumulação de força social da luta popular”. Bem, vamos ver o que significa essa “expressão eleitoral”, que, para Jones, representa a “força social acumulada pelas jornadas de luta”. Será mesmo que aquelas mobilizações que desestabilizaram o regime estão expressas no programa burguês de Petro? Será mesmo que as direções da rebelião, entre as quais o Pacto Histórico (agrupamento/coligação de partidos e movimentos que estão na chapa de Petro) era uma delas, “não teve a desistência da luta popular esperando a eleição”, como afirma Jones? Vamos ver:

No plano político, Gustavo Petro já anunciou que procurará “fazer um governo de unidade nacional” com todas as forças do regime, e "buscando o diálogo” com amplos setores, inclusive com Álvaro Uribe, conhecido direitista pró-ianque que ficou na presidência de 2002 a 2010. Além disso, Petro terá que ampliar seu arco de coligações nas câmaras do Congresso, visto que não conseguiu forte representação nas últimas eleições legislativas. Também, o ex-guerrilheiro, em seu passado, se mostrou palpável ao capital, já com um histórico na política burguesa, tendo sido prefeito do centro econômico e da capital Bogotá e Senador da República da Colômbia.

As alianças que Petro faz e pretende fazer já apontam seu projeto econômico, em que promete ao Economist não expropriar nenhum setor da burguesia, mantendo os lucros das empresas extrativistas de petróleo e gás que usurpam as riquezas do país, além de querer “criar uma economia de mercado socialdemocrata, como na Alemanha”, que “respeite a propriedade privada e o livre mercado, com responsabilidade social”. Para um país dependente e atrasado, em uma crise cada vez mais profunda, mesmo as demandas mais mínimas da classe trabalhadora só podem ser conquistadas mediante o rompimento com o imperialismo e a burguesia, não com sua colaboração. Frente a isso, o que Petro defende é, justamente, a continuidade dos pactos com o FMI, e a “negociação de acordos de cooperação com Biden”, sendo a sinalização de Blinken uma evidência dessa política. Além disso, nenhuma palavra sobre as 9 bases estadunidenses em território colombiano, que cumprem o papel de garantir a dominação imperialista no território e a repressão à classe trabalhadora e à esquerda.

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As rebeliões e a eleição de Petro:

Agora, vejamos, esse projeto burguês de Petro é expressão das jornadas de luta de 2019 e 2021? Definitivamente não. As jornadas foram protagonizadas por uma aliança entre trabalhadores assalariados, a juventude urbana precarizada, estudantes, setores progressistas da classe média urbana, indígenas e camponeses; essa aliança, se utilizando de manifestações, ações radicalizadas de combate à polícia e ao exército, piquetes, diversas paralisações e uma greve geral, inclusive com a formação de um Comitê Nacional de Greve (apesar da burocracia sindical estar na direção), deixaram o governo de Duque e o regime de conjunto por um fio de cair, em um dos países com mais peso do imperialismo. Lembremos também que as mobilizações na Colômbia impediram a realização da Copa América no país em meio à crise pandêmica, e da conhecida frase que se popularizou na época: “Se um povo sai a protestar em meio a uma pandemia, é porque o governo é mais perigoso que o vírus”.

Para conter as mobilizações, Duque se utilizou de uma estratégia das classes dominantes para conter processos revolucionários, de mesclar o “diálogo” e a repressão: por um lado, estigmatiza os setores da vanguarda mais radical das manifestações de “terroristas”, “vândalos” etc. isolando-os e legitimando a repressão (os números dessa rebelião são de mais de 4600 casos de violência policial, entre eles mais de 2000 detenções, mais de 70 assassinatos e 28 casos de violência sexual); enquanto, por outro lado, busca um espaço para “manifestações pacíficas” e negociar algum pacto. Essa estratégia desgasta os protestos e separa a vanguarda das massas, além de dar uma legitimidade para o novo pacto que mantém intacto o regime.

O papel cumprido pelas direções da rebelião, entre elas a Coalização da Esperança e o Pacto Histórico, com o apoio das burocracias sindicais da CUT e CGT, foi de fazer a política de Duque de derrotar a rebelião e sangrar o presidente para as próximas eleições (mas para Jones “não foi urnas no lugar da luta”), dividindo a luta em paralisações de um dia só, dispersas e evitando a unificação de todos os setores (apesar da dificuldade das burocracias para impor essa política, visto o alto grau de espontaneidade das massas). O próprio Gustavo Petro, inclusive, se pronunciou diversas vezes contra a unificação de uma greve geral, e condenou os setores da vanguarda mais radicalizada de “revoltosos” e “arruaceiros” por não quererem sair da rua nas manifestações. Além disso, depois da vitória da rebelião que fez com que o governo arquivasse a reforma de Duque no sistema de saúde, Petro afirmou em uma reunião do Comitê de Greve que aquele teria sido o “triunfo”, e que após isso se deveria sentar e dialogar com o governo. A jornada de manifestações foi encerrada pela direção do Comitê Nacional de Greve para uma negociação com Duque, após mais de 50 dias de luta, do governo reprimindo e das direções tentando conter.

Esse papel de Petro e do Pacto Histórico também fica explícito na fala de Alejandro Gaviria, candidato da centro-direita e membro do Banco Interamericano: “Há muito desconforto. Pode ser melhor ter uma explosão controlada com o Petro do que deixar o vulcão engarrafado. O país está pedindo uma mudança”.

Entretanto, para se legitimar frente à sua base de esquerda que está revoltada com o sistema e questiona sua adaptação política, Petro optou por colocar Francia Márquez como vice-presidenta, uma mulher negra, de origem humilde e trabalhadora, e com apoio de setores de movimentos sociais; decisão essa que também gerou grande comoção na esquerda brasileira e rendeu comparações com o Brasil, questionando o asqueroso vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin. Francia, apesar de ter sido escolhida vice para dar uma cara mais à esquerda e popular à chapa, também não se difere de Petro e da conciliação de classes em seu conteúdo político, chegando a dar declarações parecidas com as de Gustavo na rede Caracol (TV aberta colombiana), chamando por um “pacto nacional” com Uribe e demais setores da direita.

Esses são alguns argumentos que mostram que, realmente, a classe trabalhadora e a juventude não esperou as eleições, mas sim, ao contrário do que afirma Jones, o Pacto Histórico (do qual, inclusive, o Partido Comunista Colombiano, partido irmão do PCB de Jones, faz parte) de Petro desmobilizou e desviou a rebelião, sendo extremamente funcional à burguesia, e agora apresenta um programa burguês e reformista.

Além disso, Jones cita também o processo chileno, em que uma situação parecida ocorreu, com Boric e a Frente Ampla desviando a rebelião para uma Assembleia COnstituinte pactuada com o Estado e os militares, mantendo os presos políticos(com um papel central do PC Chileno, saudado por Jones e pelo PCB, em desmobilizar a rebelião). E hoje vemos o governo Boric, do qual amplos setores da esquerda são entusiastas, continuando o legado de ajustes e do entreguismo de Pinera e reprimindo a juventude e os povos indígenas. Nitidamente, a rebelião chilena que questionou a herança do regime pinochetista, pilar do neoliberalismo na América Latina, não condiz nem um pouco com a Frente Ampla repressora e ajustadora de Boric e do PCCh; esse processo, assim como na Colômbia, foi desviado por suas direções conciliadoras para canalizar todo o questionamento e a repulsa contra a exploração e a opressão para a institucionalidade e para os marcos do regime burguês. Agora estamos vendo que tal governo não avança sequer nas demandas mais mínimas das massas, e segue por administrar a crise capitalista. Analisar a experiência chilena pode nos ajudar a observar o que pode ser o governo de Petro.

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Leonardo Péricles, assim como Jones, saúda a centro-esquerda reformista. O pré-candidato pela UP coloca que tal vitória “permite a possibilidade de avançar”, e deseja que o Pacto Histórico (os mesmos que desmobilizaram) “tenham a capacidade de mobilizar o povo para as grandes mudanças…”. Façamos uma pergunta ao Leo: esse avanço do novo presidente seria mobilizando a classe trabalhadora, se apoiando no legado das rebeliões de 2019 e 2021, para conquistar as demandas mais sentidas da população colombiana, o que só se daria com uma ruptura com o imperialismo e o regime? O que está posto, como argumentamos ao longo do texto, vai no sentido inverso: Petro se coloca justamente para administrar a crise capitalista em prol do imperialismo, deixando intactas as instituições e a polícia assassina, e preservando ao máximo a ordem social a fim de evitar outra rebelião.

Leonardo Péricles também é grande entusiasta do governo de Boric como fruto do processo da rebelião, afirmando que “o povo que está sendo agente das transformações conseguiu eleger um presidente jovem (...), que é focado nisso, na força das ruas, então essa é a mudança”. Tal posição só reforça sua política reformista, não anticapitalista e não revolucionária, ao contrário do que diz e pinta ser.

Sobre a rebelião: Colômbia e o fio vermelho da rebelião na América Latina

Da defesa de governos reformistas a suas políticas no Brasil:

Essas posições, tanto de Jones Manoel quanto de Leonardo Péricles, entretanto, não surpreendem. Elas só mostram, mais uma vez, a posição que o stalinismo assume frente a governos reformistas e/ou nacionalistas burgueses. Desde a revolução chinesa derrotada pela dissolução do PCCh no Kuomitang (partido da burguesia chinesa) de 1927, passando pelas Frentes Populares que levaram à derrota da revolução espanhola e francesa, pelos Pactos de Yalta e Potsdam que afundaram as revoluções na segunda guerra, pela busca de “burguesias progressistas” em países coloniais e semi-coloniais que impediram uma luta anti imperialista consequente, pela entrada do PCB e do PCR (partido que impulsiona a UP de Leo Péricles) no MDB durante a ditadura militar, até diversos outros que são inúmeros para ficar citando, a política da tradição stalinista se mostra contra revolucionária e conciliadora. Colocar tais governos burgueses como a expressão da vitória de processos de luta da classe trabalhadora, e não como seu desvio, também é expressão da degeneração do stalinismo e de sua distância para com o marxismo revolucionário.

Essa defesa de tais posições também dialoga com a política oportunista e de conciliação dos partidos de Leo e Jones, como polemizamos aqui com Leo e a UP, aqui com o PCB e aqui com o projeto neo-desenvolvimentista de Jones, por trás de seus discursos e de sua aparência de uma esquerda radical que luta pela revolução.

A posição de uma esquerda revolucionária frente a esses processos de rebeliões deveria ser batalhar por uma saída independente dos trabalhadores, que questionasse o regime e avançasse na auto-organização dos trabalhadores, levantando a necessidade de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, como fizeram nossos camaradas do PTR, partido irmão do MRT no Chile. E batalhando hoje por uma oposição socialista, independente e da classe trabalhadora, o que é o oposto de compor o governo e sendo parte de implementar seus ataques, como fazem os partidos irmão do PCB de Jones no Chile e na Colômbia; ou sendo grandes entusiasta desses processos, como faz Leo Pericles e a UP, sem enxergar suas contradições e propor uma política que as supere de forma revolucionária.

Veja também: “O retorno da onda progressista na América Latina?”, do VII Salão do Livro Político




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