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Teatro Contemporâneo | No limiar do Engajamento e do Experimentalismo

De 4 de agosto a 3 de setembro, a peça ‘Notas para a vida no limiar’ da companhia teatral Estudo de Cena esteve em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade. A peça, como consta na sua própria sinopse, é uma ficção ensaística que propõe um exercício de imaginação anticapitalista, fazendo uso dos expedientes do teatro épico e lírico. Neste artigo, tentarei demonstrar como os recursos do teatro lírico aparecem quase como um necessário complemento formal do épico em um mundo pós restauração burguesa e acabam por corrigir um desencontro histórico, de quase um século, promovido pelo stalinismo, entre socialismo e vanguardismo. No fundamental, esta montagem prova que é possível haver uma distopia crítica ao capitalismo sem cair no ceticismo e pessimismo. [CONTÉM SPOILERS]

quarta-feira 14 de setembro | Edição do dia

Nota 1: O Fim da História e o Assassinamento do Sonho

Com a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, a burguesia travou uma profunda campanha para convencer a todos de que era o fim da história e de que o capitalismo havia vencido. Os heróis das HQs deixam de guerrear contra o inimigo soviético e passam a se preocupar com o inimigo extraterrestre, passando a seguinte mensagem: na Terra, nós, burguesia, ganhamos; somente um novo “perigo” vindo de outro planeta para representar algum nível de ameaça.

Inicia-se, portanto, uma operação ideológica que buscou, em primeiro lugar, pintar o capitalismo como sendo o único sistema possível para a humanidade viver e, para tanto, era necessário naturalizá-lo ao extremo e matar a capacidade do ser humano de sonhar com uma outra realidade. Tentou-se sistematicamente aniquilar a possibilidade imaginativa de se sonhar um sonho ativo onde as relações entre os seres humanos e o restante da natureza se apresentem livres de contradições e na sua máxima potencialidade.

Contudo, talvez o mais interessante disto seja que, ao empregar tantos recursos nessa operação ideológica - que conta com a bateria de produções cinematográficas da indústria cultural e encontram no gênero da distopia obras cujo objetivo é impregnar no imaginário coletivo a ideia de que é mais fácil haver o fim do mundo do que o fim do capitalismo -, a burguesia acaba por mostrar justamente a sua fraqueza. Só é necessário reafirmar tantas vezes que é impossível construirmos uma outra sociedade que não a capitalista porque a realidade mostra justamente o contrário: o capitalismo não só não é eterno, como historicamente merece ser superado.

Nota 2: O Lírico como necessário complemento formal do Épico em um mundo pós restauração burguesa

O Teatro Épico encontra suas raízes em um momento histórico no qual havia um estado operário, ainda que já burocratizado, compondo uma constelação de fatores que fertilizavam o sonho socialista e tornavam bastante palpável a mortalidade capitalista. A hegemonia burguesa, no período que começa com a Revolução Russa de 1917 e termina com o fim da Guerra Fria, era constantemente ameaçada pelo fantasma do comunismo, e não a toa Bertolt Brecht desenvolve os pressupostos do teatro épico, o qual organiza a substância cênica a partir de textos que abordam os conflitos sociais sob uma leitura marxista, encadeados pelo método do Distanciamento, neste momento.

Contudo, este tempo morreu e abriu espaço à chamada restauração burguesa, ou investida pós-neoliberal. O gênero distópico entra em cena com fortes representantes de best-sellers e blockbusters como Jogos Vorazes, Divergente e Wall-E a fim de moldar a subjetividade de gerações para que, quando sonhem com o futuro, seja sempre um futuro onde a humanidade deu errado. Como pensar o gênero épico neste novo momento?

Na peça ‘Notas para a vida no limiar’ vemos uma dialética dos expedientes do teatro épico e lírico desenhando o seguinte quadro: o conteúdo engajado e crítico é elevado pela envergadura homérica do teatro épico, ao mesmo tempo que é combinado com todo o experimentalismo e criatividade do lírico, cuja função e necessidade se encontram na germinação de sujeitos que consigam olhar para o futuro com o otimismo de um revolucionário.

Nota 3: É possível haver distopias críticas ao capitalismo que não caiam no pessimismo e no ceticismo?

A cena, na qual as mulheres dão à luz a um rio de corredeiras fortes que tudo submerge, abre e fecha a peça. A não linearidade da narrativa, que pula rapidamente do futuro para o passado, caminhando em um zigue zague constante, é a cristalização formal da ideia de um futuro que não está dado, mas que se apresenta ainda em construção. Está aí o grande aspecto estético que destoa das distopias “clássicas” e habilita o caráter não pessimista ou cético da obra.

Jogados no desfecho dos acontecimentos, o espectador inicia seu contato com a peça fitando as atrizes e o ator que estão sentados de frente para nós, cara a cara. No estado de espírito de quem acabou de fazer um grande esforço e agora encontra alívio, as personagens parecem falar aleatoriedades desconexas e esvaziadas inicialmente de um conteúdo específico ou referencial. O desenrolar da peça se torna, então, uma jornada de preenchimento do conteúdo daquelas palavras iniciais, as quais serão também as finais.

Depois do nascimento do rio, “a terra seca ganha veias de rios, o deserto vira floresta, a terra plana se transforma em um mar de montanhas.” Percebemos por aí que as mulheres gestavam algo poderoso e rico em vida. Na ordem cronológica, descobrimos que elas acabaram de matar o soldado do sujeito abstrato, que é retratado como carente e desequilibrado. Essa caracterização acaba por positivar o otimismo com o futuro, uma vez que é do soldado que emana o discurso fatalista. É o soldado que diz às mulheres que o futuro já foi vendido, é ele o maior defensor do sistema encarando pelas ‘lojas eu’, e tanto a sua morte, como também a sua decadente personalidade, acabam por fortalecer as ideias opostas a ele: a crença em um futuro onde o sonho é possível.

A fim de melhor entender a alegoria, vou tentar aqui propor uma leitura dos elementos cênicos. O “sujeito abstrato”, somente referido porém não encenado na peça, pode representar a personificação do sistema capitalista, do capital sem rosto mas que constrói tudo à sua imagem e semelhança. Seu soldado é a representação da força bruta, material, que através da violência busca manter a ditadura do sujeito abstrato. As mulheres, personagens centrais da narrativa, são as paladinas, no sentido forte do termo, dos oprimidos e explorados por esse sistema miserável e encontram na coletividade a resposta para realização do sonho. Elas são constantemente comparadas, não à toa, com lobas, sendo os lobos animais massivamente conhecidos como imponentes e coletivos (alcateia).

E temos a imagem do rio. Influenciado pela minha leitura de mundo, que entende que somente com a revolução socialista será possível construir um mundo novo digno de ser vivido, inicialmente projetei esta ideia na peça e li a gestação do rio como metáfora para a maturação da revolução. O “limiar” seria, portanto, o momento que separa o antes e o depois da revolução. Todavia, alertado por um amigo, voltei para a peça e decidi ouvir o aviso das próprias personagens que, depois de escutarem o que aconteceu com o mundo pós nascimento do rio, dizem que a descrição foi “um tanto abstrato, como o patrão sem rosto.” A realidade é que, somente com os elementos apresentados pela obra, não é possível precisar o que ele representa até o final, não sendo possível ir muito além da leitura dele como "potência criadora da nova sociedade", ou “liberdade do pensar e do imaginar’’.

Essa, sem dúvidas, foi a questão que mais me provocou dúvidas sobre a peça: porque deixar tão em aberto as saídas para o opressivo mundo individualizante das lojas eu?

Normalmente vemos que as distopias da indústria cultural, embora contenham elementos de crítica ao capitalismo, carregam um conteúdo reformista, tanto da causa dos males, quanto das saídas que propõem. Elas pintam um futuro pós apocalíptico onde quase sempre o egoísmo dos homens provocou uma grande catástrofe e a solução ou não existe, ou passa por uma maior conscientização e sensibilização das pessoas. As razões do problema e suas soluções são assim moralizadas e desconectadas das raízes mais profundas e concretas que as ligam ao sistema capitalista, as quais necessariamente levam à conclusão da necessidade de uma saída revolucionária.

Na peça “Notas para a vida no limiar”, somos atravessados pelos ecos das personagens que recorrentemente pensam e almejam “mandar tudo pelos ares”. Tal discurso potente é conectado a um enredo que vincula os problemas das personagens especificamente ao sistema capitalista. Esses elementos, juntamente com a composição do tempo não-linear da narrativa, são o coração vivo de onde pulsa o sangue do real otimismo com o futuro, o qual significa também um otimismo com a própria classe trabalhadora e sua capacidade criadora, coração esse que destoa profundamente do decrépito e apodrecido coração das distopias produzidas por hollywood. Não se trata aqui de desqualificar ou jogar fora tais produções, as quais são bem complexas e cheias de nuances. Trata-se, então, de focar em um aspecto, na visão de futuro e no consequente otimismo ou pessimismo produzido pelas obras acerca da humanidade e seu destino, não desvinculando, obviamente, dos objetivos políticos por trás de tais escolhas.

Nota 4: O reencontro do socialismo com o vanguardismo

"(...) socialismo e vanguardismo viam como caducas as formas do mundo burguês e quiseram apressar o seu fim. Por isso mesmo espanta que não tenha sido maior a sua associação e, sobretudo, que no interior da esquerda tenha havido tanta hostilidade ao espírito experimental, a ponto de se formar um desencontro histórico (...)." (Roberto Schwarz, Que Horas São?)

Se voltarmos aos debates artístico literários da década de 30 no Brasil, veremos que havia uma intensa polarização política que atravessava a sociedade de conjunto. Tal polarização colocou as obras que possuíam maior afinidade com as temáticas sociais de um lado, do lado do socialismo, da esquerda, enquanto aqueles que valorizavam as inovações estéticas típicas das vanguardas artísticas eram vistos como reacionários, de direita. Colocando nome aos bois, é importante dizer que tal divisão extremamente problemática foi fomentada pelo stalinismo pela via do PCB, que na época já era um partido com influência, e encontra origem na política reacionária do realismo socialista.

O realismo socialista, modelo estético exportado do Kremlin, defendia que as produções deveriam negar os novos experimentos estéticos das vanguardas, adotando somente a forma realista, com a desculpa de que a classe trabalhadora não entende o cubismo, futurismo, expressionismo e etc, e que esses negariam a realidade. Além disso, os enredos deveriam ser construídos de tal forma que fosse óbvio, pela classe social das personagens, saber quem era o vilão (burguês) e quem era o herói (trabalhador), sempre com descrições idealizadas do proletariado, sendo esses homens, fortes e de índole inquebrantável.

Essa orientação era sustentada ideologicamente no que a linha stalinista entendia por “cultura proletária”, que significava a negação de toda a arte produzida até então pela humanidade, pois seria uma arte dos exploradores, e a imposição de um modelo artístico dogmático, rígido e panfletário. Já o entendimento de Trótski do que seria essa “arte proletária” é bem distinto:

“Termos como literatura proletária e cultura proletária são perigosos quando comprimem artificialmente o futuro cultural no quadro estreito presente, falseiam as perspectivas, violentam as proporções, desnaturam os critérios e cultivam de modo muito arriscado a arrogância dos pequenos círculos[...] Se rejeitamos o termo ‘cultura proletária’, o que fazer com o Proletkult? Convenhamos então que Proletkult significa ’atividade cultural do proletariado’, isto é, a luta encarniçada para elevar o nível cultural da classe operária. Tal interpretação, na verdade, não diminui em nada a sua importância.”

Logo, para o autor de “Literatura e Revolução", nunca se tratou de limitar a arte, muito pelo contrário. O papel do partido revolucionário após a tomada do poder deveria ser o de apresentar para as massas o conjunto da produção artística acumulada até então pela humanidade, fomentando as produções que surgiriam a partir daí.

Agora, é evidente que tal política reacionária deixou marcas no desenvolvimento artístico brasileiro. Voltando à peça a partir daí: como definir, sob as óticas estreitas do stalinismo, uma montagem que entende a si própria como uma articulação entre o teatro épico e lírico? Uma obra que brinca com a construção de imagens e situações descontínuas, anti-miméticas, profundamente experimentais, justamente para criticar mais profundamente o capitalismo.

Em ‘Notas para a vida no limiar’, a falácia stalinista, com todo o seu populismo e materialismo vulgar, é desmascarada pela positiva. Vemos uma peça que em cada cena articula o ideológico com o estético de modo a produzir o veneno mais ácido e onírico possível, corroendo assim não só o capitalismo, mas um de seus agentes mais perigosos, aqueles que se escondem com uma roupagem vermelha em nossas fileiras.




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