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Paulo Diniz: e quando morre uma estrela do soul?

Renato Shakur

Paulo Diniz: e quando morre uma estrela do soul?

Renato Shakur

Paulo Diniz, certamente, foi bem mais que uma estrela apenas do soul, suas canções ficaram imortalizadas na MPB como um grande compositor e intérprete. Na sua voz se consagraram grandes obras como “Pingos de Amor”, “Quero voltar para Bahia”, “O meu amor chorou”, “Marginal III”, “José”, “Só que minha pele é preta”, entre tantas outras. A memória de Paulo Diniz pode ser contada de diversas maneiras, mas hoje prefiro lembrar dele apenas de um jeito.

Em plena ditadura militar, frente a seus órgãos de censura alguns artistas como Toni Tornado, Cassiano, Jorge Ben, Gerson Combo, Tim Maia e o próprio Paulo Diniz, davam os primeiros passos da soul music no Brasil no início dos anos 1970. Eram anos bem difíceis após derrota dos processos de greves de Contagem e Osasco que impôs uma nova correlação de forças dentro do regime com o AI-5. Na música e na arte, a indústria cultural e os meios de comunicação impediam que a soul music brasileira se aproximasse ainda mais do movimento Black Power nos Estado Unidos.

Os ventos da luta de classes, da luta por direitos civis, a contragosto dos militares e da burguesia brasileira não só sopraram deste lado, como também inspiraram essa geração da soul music. Paulo Diniz foi um deles.

Quando questionado em uma entrevista nos anos 1970 sobre sua música, ele disse que fazia música “negra brasileira”: “Minhas músicas são catarses, procuro compensar na composição os problemas raciais que enfrentei na infância” [1]. Isso ficou bem marcado na canção “Só que minha pele é negra” do LP “Brasil, Brasa, Brasileiro” de 1970 gravado pelo selo Som.

Sabe, a vida foi quem ensinou
que nós não somos tão iguais
por que? por que?
Eu gostava tanto de você
Eu gostava tanto de você
E sei que um dia você já amou
Um rapaz igualzinho a mim

Só, só, só que a minha pele é negra
Só, só, só que a minha pele é negra

A letra narra as contradições de um jovem que aprendeu no cotidiano o que é o racismo estrutural. A crítica de Paulo Diniz antecipava o que no final daquela década a 3ª geração do movimento negro sintetizaria em suas discussões como a crítica ao mito da democracia racial. Mas assim o fazia contra o regime militar que defendia a democracia racial – Gilberto Freyre, inclusive, foi um grande amigo e “amigo de estudos” de Golbery [2] – e punia e torturava todos aqueles que denunciassem o racismo.

Paulo Diniz também denunciou as condições de vida do trabalhador durante a ditadura militar. Suas letras muitas vezes retratavam a vida dura do trabalhador nordestino migrante que vinha para o sudeste para trabalhar na indústria automobilística, na construção civil e outros setores precários. Era a época do "milagre econômico” e do arrocho salarial, a burguesia junto aos militares pagavam baixíssimos salários, enquanto a fome, a desnutrição, os acidentes de trabalho e as inúmeras horas extras faziam parte do cotidiano de milhares de operários e foi a base para erguer o crescimento econômico brasileiro até 1974.

Sua sensibilidade também não esteve alheia a isso. Nascido em Pesqueira, no agreste de Pernambuco, pôde transmitir parte do sentimento desses trabalhadores através de uma música chamada “Eu quero voltar para a Bahia” narrando a saudade que esses operários e trabalhadores sentiam ao vir trabalhar nos cinturões industriais no sudeste. Ela mistura soul e a toada nordestina e foi inspirada na carta de Caetano Veloso ao jornal “O Pasquim” que fala da saudade no exílio em Londres. Paulo Diniz também quis homenagear os/as artistas do Tropicalismo.

I don’t want to stay here
I wanna to go back to Bahia

Eu tenho andado tão só
Quem me olha nem me vê
Silêncio em meu violão
Nem eu mesmo sei por que.
De repente ficou frio
Eu não vim aqui para ser feliz
Cadê o meu sol dourado?
Cadê as coisas do meu país?

I don’t want to stay here
I wanna to go back to Bahia.

Eu tenho andado tão só
Quem me olha nem me vê
Silêncio em meu violão
Nem eu mesmo sei por que.
Via Intelsat eu mando
Notícias minhas para
"O Pasquim"
Beijos pra minha amada
Que tem saudades e pensa em mim

A vida marginalizada do migrante nordestino que deixou paixões, sonhos e uma parte de sua vida para trás se entrelaçam com a mesma saudade de militantes e familiares que estavam no exílio, ou até mesmo que aumentavam as terríveis listas de mortos e desaparecidos na ditadura. Mas o que chama a atenção nessa canção é que o soul nasceu no Brasil também ligado às angústias e problemas vividos pela classe trabalhadora como o arrocho salarial e a intervenção nos sindicatos que dificultava a luta por seus direitos. Poucos anos depois do lançamento dessa música, o movimento operário brasileiro voltaria a se organizar contra o regime através das oposições sindicais e das comissões de fábrica reivindicando reajuste salarial e condições adequadas para o trabalho. É nesse momento também que passaram a organizar os bailes soul em diversos estados do Brasil. As músicas de Paulo Diniz, mas também de James Brown, Tim Maia, Etta James, Marvin Gaye e vários outros passaram a ser ouvidos pela classe trabalhadora brasileira todos os finais de semana nesses bailes que só no Rio de Janeiro, em um único final de semana juntava 1,5 milhão de trabalhadores.

A propósito da pergunta, “e quando uma estrela do soul morre?” O lembramos como parte da historia viva do proletariado brasileiro, como o grito de liberdade que por gerações e gerações foi entoado por negros e negras, não só aqui no Brasil, mas em todo mundo! Rest In Power, Paulo Diniz!


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FOOTNOTES

[1Entrevista para a revista Veja, coluna “Soul & Alma” cedida em 1970, p.79 apud Carlos Amaral de Paiva, “Black Pau: a soul music no Brasil nos anos 1970”, 2015, p. 74.
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