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Escovar a história a contrapelo: 1977 e o 11 de agosto de 2022

Danilo Paris

Escovar a história a contrapelo: 1977 e o 11 de agosto de 2022

Danilo Paris

"Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também, um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo."
(Teses sobre o conceito de História - Walter Benjamin)

Benjamin, em suas Teses sobre o conceito de História, contrapõe-se ao historicismo que reconstrói o passado a partir de uma sucessão de acontecimentos, como um acúmulo de segmentos que se depositam com o transcorrer do tempo, sem distinção entre os grandes e os pequenos. De um modo geral, essa concepção favorece a reconstrução de um passado narrado do ponto de vista dos vencedores, isso é, das classes dominantes.

Ele parte que o passado não é um tempo fechado, mas uma arena em disputa. “Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história”, adverte nas mesmas Teses. Cabe, portanto, ao materialismo histórico “escovar a história a contrapelo”, em outras palavras, buscar na história o ponto de vista dos vencidos para reconstruir seu próprio passado e afiar as lanças que irão lutar pelo futuro.

Essa breve digressão sobre a concepção da história será importante para interpretarmos o 11 de agosto de 2022: o dia da “defesa do estado democrático de direito”, da “união nacional”, da “convergência dos divergentes”, da “comunhão entre o capital e o trabalho”. Assim retratam, de forma apologética, diversos editoriais, análises e reportagens dos principais meios de comunicação sobre a leitura das cartas em defesa da democracia, como foram chamadas. Uma verdadeira engenharia política, ideológica e cultural que buscou se servir de um passado reformatado, em vista às necessidades da política do presente.

Goffredo e o monumento da barbárie

Encabeçadas pelas mais poderosas federações do capital financeiro e industrial, acompanhadas de um degradê de personalidades políticas, empresariais, entidades sindicais e estudantis, as cartas, apesar de serem duas, foram lidas e apresentadas conjuntamente em diversos locais do país, com seu epicentro na Faculdade de Direito da USP no Largo de São Francisco. Consideradas as duas, da FIESP e Febraban à CUT e UNE, de Temer à Dilma passando por Lula, sempre acompanhados das figuras PSOL e chegando até Leonardo Péricles (UP) e Sofia Manzano (PCB) uma mítica da “unidade” em defesa da democracia se espraiou na opinião pública em oposição às ameaças bolsonaristas em seu não reconhecimento dos resultados eleitorais.

Para transmitir ares históricos, as atuais cartas são declaradamente inspiradas naquela lida por Goffredo da Silva Telles Júnior em 1977, durante a ditadura militar. Segundo seus propositores, um marco que iniciou a queda da ditadura que culminaria na Constituinte de 88.

Goffredo, até então pouco lembrado, foi erguido como um monumento, um exemplo a ser repetido no presente. Essa reconstrução histórica não foi sem objetivos do presente, e o monumento, lembrando Benjamin, também representa uma barbárie que, por motivos político-ideológicos, estão ocultos nessa nova narrativa.

Assim como a burguesia paulista necessitou construir a imagem do bandeirante como um herói desbravador, a fração burguesa que encabeçou as cartas buscou criar o seu próprio mito democrático na figura de Goffredo, e até mesmo o PSTU embarcou nessa obra, enaltecendo a carta de 1977 como um enfrentamento à ditadura.

No entanto, a trajetória política de Goffredo não é bem essa. Ao contrário do herói democrata, foi integralista, ideologia de inspiração fascista, e militante da Ação Integralista Nacional. Integrou suas fileiras desde 1932, sendo eleito deputado constituinte em 1946, e depois até 1950 em coligação com o Partido de Representação Popular, criado por Plínio Salgado. Ele mesmo relembra de forma saudosa seu ingresso no integralismo, em entrevista realizada em 1996:

“Foi então que, para muitos de nós, estudantes de Direito, apareceu o Integralismo, como a solução que estávamos buscando. Aos nossos olhos, o Integralismo, lançado por Plínio Salgado, nascido logo após a Revolução de 32, era, precisamente, aquela terceira posição, aquela procurada linha de centro, contrária aos totalitarismos de Estado e contrária ao liberalismo da burguesia [1].”

Em 1934, esteve no evento que ficou conhecido como a Batalha da Sé ou a Revoada dos Galinhas Verdes. Os Integralistas pretendiam fazer uma demonstração de forças na capital de São Paulo, concentrando milhares na Praça da Sé para manifestar seus objetivos reacionários. Os trotskistas que dirigiam a UTG (União dos Trabalhadores Gráficos), propuseram uma política para barrar o avanço dos fascismos no Brasil. Conformando uma Frente Única Antifacista, trotskistas, anarquistas e socialistas fizeram uma batalha contra os integralistas, que ao cabo de horas de duros enfrentamentos, fugiram deixando para trás seus uniformes verde-oliva. Entre eles, Goffredo, como ele próprio admitiu em entrevista publicada no site em sua homenagem [2].

A carta de 1977 vocalizava o deslocamento de um setor das classes dominantes, que se afastaram da ditadura após o fim do que ficou conhecido como “milagre econômico”, em 1973. Descontentes com os rumos da economia nacional, uma parcela da burguesia nacional iniciou um movimento por dentro da ordem, que pressionava para uma transição controlada, buscando a constituição de um novo regime democrático burguês.

Esse processo estava inserido em um contexto de mudanças no quadro internacional. Com a derrota do imperialismo dos EUA no Vietnã, e processos revolucionários na Europa, também desencadeado por revoluções na África, no velho continente começam a se costurar acordos de transição pactuada nos regimes ditatoriais de corte fascista, como em Portugal, em 1974, e na Espanha em 1975, a fim de evitar novos ascensos revolucionários.

No Brasil, além da economia, politicamente a ditadura começava a dar sinais de esgotamento. Em 1974 os sintomas de enfermidade se tornaram mais fortes. Nas eleições desse ano, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido da “oposição consentida”, recebeu uma importante votação, elegendo a grande parte dos senadores, e quase conquistou a maioria da Câmara. Animados com esses resultados, esses setores burgueses buscavam se colocar à testa da transição, através da negociação com os generais e avessos a qualquer tipo de mobilização que pudesse derrubar a ditadura.

A carta de 1977 e seu apoio na grande mídia é uma expressão desse momento histórico. Reverberam a política de uma fração da burguesia que havia apoiado o golpe, e agora se descolava para uma oposição por dentro da ordem. Uma parte desses setores, entre eles Goffredo, buscou ser interlocutora do regime antes dessa relocalização política. Ele próprio, chegou a elaborar dois projetos de Constituição que foram entregues a Costa e Silva e Médici, os dois generais que encabeçaram o regime em um dos seus momentos mais sanguinários, marcado pelo AI-5, com o recrudescimento das prisões, sequestros e torturas.

A escolha dessa figura para a redação e leitura da carta não está dissociada desse currículo. Por ser inquestionavelmente um anticomunista e uma figura vinculada a ideologias tão reacionárias como o integralismo, Goffredo não deixaria dúvidas que os objetivos da carta de 1977 estavam longe de qualquer fundamento subversivo, e menos ainda de ruptura abrupta com o próprio regime. Buscar transformar essa figura grotesca em um herói democrático, e a leitura da carta com um marco histórico que culminaria com a abertura democrática, não é apenas uma falsificação do passado. Está em função de um política do presente, como vamos desenvolver mais à frente.

A história a contrapelo: A Scania, e não as Arcadas da São Francisco que fez a ditadura tremer

Diferente do que dizem os atuais editoriais, não foi nas Arcadas da São Francisco, mas na fábrica da Scania que começou o processo que fez tremer a ditadura, no dia 12 de maio de 1978. A partir da paralisação da ferramentaria da Scania, e depois de toda a planta, que outras fábricas maiores do ABC também entraram em greve. Como mostra Lincoln Secco em A história do PT, a paralisação na Scania começou por fora da diretoria do sindicato dirigido por Lula, sendo a fagulha do movimento que foi se expandindo até as greves gerais metalúrgicas no ABC e em São Paulo, em 1979 e 1980.

O prelúdio do ascenso foi a saída do movimento estudantil em 1977, desafiando o regime com as bandeiras de “Abaixo a ditadura”. A luta dos estudantes, com destaque para a USP e PUC, soaram o alarme que o caldo social estava prestes a entrar em ebulição. Alguns meses depois iniciou-se o ascenso operário que resultou em uma onda de greves que questionaram os planos de abertura dos militares. Era uma situação que tinha um enorme potencial para adquirir uma dinâmica revolucionária, colocando na ordem do dia a derrubada da ditadura militar.

Entre 1978 e 1980, as enormes greves irradiaram do ABC para a cidade de São Paulo, atingindo diversas regiões do país e contaminando diversas categorias como bancários, professores, trabalhadores agrícolas, entre outros. No epicentro paulista desse amplo movimento se desenvolveu uma forte hegemonia operária que angariou apoio das classes médias, intelectuais, estudantes e artistas. A luta da classe trabalhadora era a representação da luta contra a ditadura, paralisando os principais centros econômicos do país, com fortes tendências à radicalização [3].

Não fosse a política traidora e conciliadora da direção de Lula e os "autênticos", esse processo poderia ter derrubado a ditadura. O próprio Lula narra [4] que sua política em 1979, ao aceitar a proposta patronal para o fim da greve, foi considerada uma traição pelos trabalhadores. Frente a isso, deixou a greve de 1980 se isolar e ir perdendo força diante dos imensos ataques da justiça, da patronal e do regime até que sofresse uma importante derrota.

Mesmo com os limites impostos por essa direção, que bradava que aquelas greves não podiam ser contra o regime, mas apenas econômicas, a irrupção dos operários na arena nacional modificou os planos dos generais. Os ritmos, planos e a dinâmica da transição foram profundamente modificados, frente ao medo despertado pela classe trabalhadora em movimento.

Não foi uma carta de juristas, mas o cataclismo operário que fez tremer a ditadura. Suas marcas reverberaram pelas décadas seguintes da história do país.

Passado e presente

Voltando à situação política atual, a busca por remodelar o passado está conectada com os objetivos do presente. A ligação entre 1977 e 2022 é uma operação político-ideológica que está a serviço de legitimar o conjunto dos atores do regime político e do bloco burguês que agora é opositor a Bolsonaro. Querem criar uma imagem de uma burguesia democrática, para nublar sua verdadeira história, recheada de investidas antidemocráticas e golpistas. Do mesmo modo, causa arrepios a todos eles, a classe operária atuando com seus próprios métodos e objetivos.

Uma parte considerável deles apoiou ativamente Bolsonaro em 2018, após o naufrágio de suas intenções iniciais ao redor de Geraldo Alckmin. Vários deles, incluindo o STF, estiveram à frente do golpe institucional de 2016, sendo os tribunais superiores de hoje herdeiros do poder judiciário que elaborou os ordenamentos legislativos que sustentaram a ditadura. A FIESP, que formulou a sua própria carta para não perder protagonismo no 11 de agosto, não só fez parte dessa trama golpista da história recente, como foi apoiadora da ditadura militar de 1964. Seus executivos e membros participavam ativamente da repressão política, trazendo aos militares inovações técnicas para serem implementadas nas sessões de torturas, além de vultosas contribuições financeiras.

Frente às ameaças golpistas de Bolsonaro, esse bloco busca aparecer como opositor. Uma movimentação com objetivos estratégicos: relegitimar um regime atravessado por ataques bonapartistas e antidemocráticos, desacreditado por amplos setores de massas. Diante da permanente instabilidade provocada por Bolsonaro e o receio de que a situação social se agrave, esse setor busca um regime com mais estabilidade, em função de manter todos os ataques e reformas que destruíram os direitos de amplos setores de massas, tarefa para a qual a chapa Lula-Alckmin se coloca.

Assim como esse bloco de oposição burguesa apaga a luta da classe trabalhadora que fez tremer a ditadura, querem agora que ela siga como um ausente na luta contra Bolsonaro, e para isso contam com o imenso apoio das burocracias sindicais.

As mãos dadas entre FIESP e CUT, entre outras centrais sindicais e entidades patronais, é o símbolo do compromisso para a manutenção de todos os ataques que passaram nos últimos anos. Cada um por seus próprios motivos, temem que essa classe se coloque novamente em movimento, com toda força e energia desatadas no fim dos anos 1970.

Diferente do que propagandeiam, a Frente Ampla, agora constituída em torno das cartas pela democracia, é completamente incapaz de enfrentar a extrema-direita, os militares e sua permanente sanha golpista. No seu interior, estão forças que não tem qualquer apreço democrático, e apenas se aproveitam dessa retórica de acordo com a ocasião. Mais ainda, é um pressuposto seu excluir a mobilização dos trabalhadores e setores populares, para que seus interesses não sejam ameaçados. As inexpressivas mobilizações de rua que ocorreram no dia 11 são uma expressão disso.

Ao contrário de buscar um novo Goffredo e aliados na burguesia financeira, a batalha é para que a classe trabalhadora emerja como sujeito independente. As burocracias sindicais e a chapa Lula-Alckmin, são justamente a trincheira avançada para impedir que isso aconteça. Já aquela esquerda que adverte como “erro” a política que rechaça estar de braços dados com o grande capital se reduz a uma espécie de sócios menores da conciliação lulista, na contramão da necessidade de construir uma força política que supere o PT pela esquerda. A luta para derrotar as ameaças golpistas de Bolsonaro, e o conjunto dos seu projeto, precisa estar intimamente relacionada com a luta para revogar as reformas e ataques, através de greves, paralisações e planos de luta. Só assim, passado, presente e futuro estarão salvos de toda artilharia burguesa que permanentemente busca criar um mundo à sua imagem e semelhança. Reconstruir a história a contrapelo, livre do entulho burguês, para armar um caminho de independência de classes, é a tarefa que está colocada.


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FOOTNOTES

[3Para uma visão integral do processo ver o livro: A classe operária na luta contra ditadura (1964- 1980). Disponível em: https://iskra.com.br/produto/e-book-a-classe-operaria-na-luta-contra-a-ditadura-1964-1980/

[4Disponível em: https://youtu.be/Z9UZozoQxjI, a partir das 2 horas e 35 minutos do vídeo.
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Danilo Paris

Analista nacional e professor de Sociologia
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