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O popular e o tradicional | Os papangus de Bezerros à luz da luta de classes

Este artigo tem a intenção de apresentar reflexões sobre a cultura popular de Bezerros em Pernambuco, mais especificamente a cultura do Papangu.

sábado 13 de agosto | 17:23

Foto: Paulo Paiva/DP.

Há diversas interpretações sobre o surgimento dos papangus que remetem a momentos históricos diferentes. Pesquisadores têm associado o surgimento das máscaras como forma dos escravizados ao longo do século XIX participarem dos bailes de máscaras das casa-grande sem serem percebido. Obviamente, teriam de usar fantasias de corpo inteiro para de fato passarem despercebidos. Essa explicação mostra como o sentido conspirativo permeava toda vida social do escravizado desde os quilombos até as formas de enganar os senhores de engenho para impor sua vontade. Outras explicações associam o papangu ao carnaval, como uma forma dos trabalhadores e trabalhadoras poderem manter o anonimato durante as festividades. Há outras que remetem aos anos 1950, onde os trabalhadores iam de casa em casa pedir comida, angu, daí a origem do nome associar o ato de comer “papa” com a comida feita de fubá, o “angu”. Temos que lembrar que aquele período foi fortemente marcado por um processo migratório do campo para a cidade em várias capitais do Norte e Nordeste, mas também dessas regiões para o Sudeste e Centro-Oeste. Muitos desses trabalhadores rurais, como relatam uma vasta historiografia e produção audiovisual, fugiam da fome!

As histórias da confecção das máscaras dos papangus e do artesanato local se confundem desde suas primeiras aparições. A partir dos anos 50, há uma virada estética na produção artesanal das máscaras pelos foliões, pois os acessórios rudimentares utilizados deram lugar ao papel colê, gesso e tecido. Em outras palavras, há um desenvolvimento de outras técnicas quando a cultura dos mascarados se expande e cai nas graças da população urbana. Originalmente, a fantasia era enfeitada com folhas de bananeiras e cajueiros - espécies abundantes na região - e a face coberta com papel usado para embrulhar carne seca. Sendo assim, é possível evidenciar a força da expressão popular, ganhando forma e adesão do campo à cidade.

Agora chegamos em meados de 1990, momento em que o investimento em turismo e divulgação midiática do carnaval e da cultura popular dos papangus de Bezerros se potencializa. Matérias de jornais do estado de Pernambuco marcam a época e o imaginário dos bezerrenses. Os articuladores políticos do município, totalmente vinculados à oligarquias regionais, passam a usar isso a seu favor, vinculando a expansão do nome da cidade à produção dos papangus. O artesanato local se torna fonte de renda, frente às dificuldades dos trabalhadores, muitas vezes tendo que sair de Bezerros para trabalhar no polo têxtil do Agreste e os trabalhadores rurais com enormes dificuldade para manter a agricultura familiar, acabam se lançando no trabalho artesanal como forma de complementar sua renda e até mesmo sobreviver. À medida que a produção dos papangus ia aumentando, foi paulatinamente usada pelas oligarquias como um produto cultural e turístico.

Lula Vassoureiro é um patrimônio vivo da cidade. Desde 2013 passou a ser considerado patrimônio vivo da cultura pernambucana, já deu oficina em 4 continentes. Foto: Annaclarice Almeida/DP/D.A Press.

Ainda que as elites locais tentem se apropriar da cultura dos papangus, essa apropriação é parcial. O reconhecimento de artistas como Lula Vassoureiro e Galego da Oficina e não as famílias Borba, Cardoso, Lemos e Valmir, como importantes artistas dos papangus evidencia que são os trabalhadores que constroem e fazem cotidianamente a cultura popular, e não as elites regionais. Quando os bezerrenses dizem “agora somos a terra dos Papangus, terra do Carnaval”, também querem falar que são eles que tomam a cultura popular nas próprias mãos e por isso que os papangus são parte de sua tradição.




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