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Piso da enfermagem | "A gente trabalha sobrecarregado, no limite", denuncia profissional na enfermagem do RN

No dia 21 de setembro ocorreu nacionalmente a paralisação da enfermagem. Na concentração da paralisação, em Natal, entrevistamos alguns dos presentes sobre as péssimas condições de seu trabalho, de seus locais de trabalho e os assédios absurdos que sofrem de seus patrões

Felipe ColaresEstudante de Letras da UFRN e militante da Faísca Revolucionária

domingo 25 de setembro | Edição do dia

Suspenso pelo ministro Barroso do STF, o piso salarial da enfermagem é fruto de décadas de luta dos profissionais da enfermagem que foram linha de frente na luta contra o Covid-19 nos hospitais e UBSs e que são tratados com pura demagogia por Bolsonaro que se vangloria de ter-lhes “dado” essa conquista e tenta ganhar confiança dos trabalhadores da saúde atacando o STF mesmo após o total descaso com a pandemia de Covid que arrancou a vida de milhares de enfermeiros e enfermeiras. Se desdobrando em turnos de trabalhos desumanos, estruturas hospitalares extremamente precárias, sofrendo com falta de insumos medicamentosos e sob assédio de seus patrões para aumentarem o rendimento e não engajarem às paralizações e greves, profissionais da enfermagem do Hospital dos pescadores ao Walfredo Gurgel, do Hospital da prefeitura de Macaíba ao Hospital regional do estado dão o mesmo diagnóstico: não há condições de trabalho.

Em entrevista à equipe do Esquerda Diário, duas enfermeiras fizeram o seguinte relato:

ED — O que é que vocês tem achado da situação do hospital dos pescadores atualmente? Relativo tanto aos recursos humanos quanto à estrutura do hospital em si.

ENF 1É bastante polêmico o tema, por quê? Como a gente se tornou um hospital referência no Covid também, isso aumenta a demanda de trabalho e a sobrecarga dos trabalhadores pra dar suporte, né? Assistência aos pacientes. Então a gente tem certa dificuldade com a parte da estrutura física e também de recursos humanos, né? Que em parte hoje, graças a deus, deu uma aliviada, mas teve um momento bem difícil que a equipe era bem sobrecarregada.

ED — Imagino. Entrevistamos algumas pessoas agora que comentaram que vários colegas de trabalho começaram a usar medicamento controlado porque o desgaste psicológico é muito grande…

ENF 1Causou muito adoecimento mental, né?

ED — E a paralisação, o que vocês tem achado de hoje?

ENF 1Hoje eu acho bastante importante, mas eu ainda acho pequeno o número de pessoas que tá aqui comparado ao município de Natal, Rio Grande do Norte, né? Eu esperava mais profissionais, de verdade.

ENF 2Mas tem uma justificativa nisso. Que é a questão da perseguição da gestão, né? Existe uma perseguição especialmente da supervisão dos hospitais particulares. Eles são coagidos a não vir às manifestações sob ameaça de demissão mesmo.

ENF 1Muita gente não veio por medo, né?

ED — Mas o hospital dos pescadores é público, né?

ENF 1Sim, é municipal

ENF 2A grande maioria dos funcionários são contratados ainda, da prefeitura. A minoria, acho que cerca de 10% são concursados, mediante concurso público, aí a gente tem mais liberdade

ED — Aí quem tem contrato sofre mais assédio, né?

ENF 2É, quem tem contrato sofre assédio. Mas existe, é real. Mesmo assim nós concursados às vezes sofremos assédios por parte das coordenações e da gestão pra não aderir aos movimentos. Principalmente em ano de política, né? Todo mundo quer fazer aquela imagem bonitinha do serviço de saúde só que não é nada disso, quem tá dentro sabe que a gente trabalha sobrecarregado no limite dos recursos humanos e materiais. No hospital dos pescadores mesmo, hoje em dia tá faltando o básico e é nacional assim, de insumo medicamentoso principalmente.

Veja também: Todo apoio à enfermagem, que encheu as ruas em Natal - RN! Piso salarial já e SUS 100% estatal!

Outra enfermeira nos deu o seguinte relato:

ED — Mas então, o que você tem achado atualmente do local onde você trabalha? Primeiramente, você trabalha onde?

ENFNo hospital regional do estado e no hospital da prefeitura de Macaíba. Todos aqui trabalham geralmente em dois, certo? Rapaz, vou falar resumindo: vamos fazer greve porque tá grave. Não tem pra onde correr. Os empresários que mandam no país, infelizmente, e quem move o país é a mão de obra então a gente tem que parar pra ver se é visto, se é lembrado e se é valorizado.

ED — E o que você tá achando da paralisação hoje?

ENFEu acredito que tem que ter muitas, porque só uma não vai valer não. E que tenha mais impacto, que os colegas não tenham medo. Porque a maioria não vem porque tem medo, eu entendo que ninguém quer ficar sem emprego, mas se a gente não parar pra ter impacto e pra que a população e os empresários vejam que sem a enfermagem a saúde não funciona de jeito nenhum, a gente não vai conseguir o que a gente merece.

[…]

ED — Bastante gente trabalha em duas unidades, né?

ENFBastante gente. Duas ou três porque só uma não dá, né?

ED — É bastante carga de trabalho, né?

ENFÉ… 12 horas de plantão em um, 12 em outro, vinte e quatro, então…

ED — Quantas horas por dia mais ou menos você trabalha?

ENFGeralmente nós trabalhamos plantões de 24 horas, ou 12 horas. Ou 12 de dia ou 12 a noite.

ED — Mas trabalha 24 pra descansar?

ENF24 é pra descansar 72, só que a gente trabalha 24 em um e tem que ir às vezes pra 24 em outro, sai de um pra outro porque não tem como descansar.

ED — Aí você acaba descansando metade do tempo que era pra você descansar, né?

ENFIsso. Ou menos. Pra poder muitas vezes ganhar 4 mil reais juntando os dois empregos e ainda trabalho extra.

ED — Estavam comentando mesmo em outras entrevistas que vários colegas da rede privada não vieram por medo de demissão, de assédio…

ENFPorque a gente tá sofrendo muito assédio mesmo. Do jeito que o país tá, não tem como você ficar sem emprego. Quem tem emprego já tá correndo o risco de passar fome, quem não tem emprego vai morrer de fome.

Por isso, nós do Esquerda Diário e da Faísca Revolucionária nos colocamos lado a lado de enfermeiras, enfermeiros, técnicas e técnicos da enfermagem. Piso salarial já! E pela proibição imediata de quaisquer demissões e a revogação imediata de todas as reformas e privatizações, a começar pela reforma trabalhista!

As centrais sindicais precisam romper sua paralisia eleitoral, destinada a manter os acordos de Lula e do PT com a direita e os empresários, organizando a luta nacionalmente! Nessas eleições, para derrotar o bolsonarismo e os ataques, precisamos de um programa independente das e dos trabalhadores e anticapitalista para impulsionar a luta, não aceitaremos continuar pagando pela crise!

Veja também: Milhares de enfermeiras fazem ato em Recife pelo pagamento imediato do piso salarial

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