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Precarização da educação | Sala de aula em chamas: crônica de uma professora em meio a onda de calor

Ultimamente, as conversas nos corredores e sala de professores das escolas têm sido mediadas pela repulsa ao calor absurdo que têm castigado de forma ainda mais severa trabalhadores e a população pobre no Brasil. Não há quem trabalhe ou estude na rede pública que não esteja sofrendo com a insalubridade causada pelas altas temperaturas.

sábado 18 de novembro de 2023 | Edição do dia

A onda de calor vem batendo recordes a cada dia. No Rio de janeiro, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a sensação térmica bateu absurdos 58ºC. Cidades como Belo Horizonte e São Paulo não ficaram para trás registrando 38ºC, com sensação térmica de 40ºC, e outros 13 estados também estão em estado de perigo com riscos à saúde e à vida humana.

Num cenário de sucateamento dos serviços básicos, como transporte, saúde e educação, as altas temperaturas decorrentes do aprofundamento da devastação ambiental se abatem sobre nossos corpos nas escolas e tornam a rotina escolar, que já era física e psicologicamente desgastante, ainda mais precária.

Antes mesmo de chegarmos às escolas, funcionários e alunos já sofrem com ônibus e metrô quentes e sem refrigeração, com transporte público superlotados e em condições precárias agravadas ainda mais pelas altas temperaturas. Vide o caso absurdo no Rio de Janeiro de uma mãe ter que quebrar com as mãos o vidro de um ônibus que não permitia abrir as janelas e estava o ar condicionado quebrado, fazendo com que seu filho passasse mal.

Os alunos que vêm para a escola a pé já chegam em sala de aula exaustos e esgotados, sobretudo os alunos do vespertino que são obrigados a enfrentarem o sol de meio dia em suas costas.

Para nós, professores, fica muito evidente o quanto as políticas de sucateamento dos serviços básicos aplicados pelos governos são responsáveis pelas piora nas condições de trabalho. Diariamente enfrentamos a superlotação das escolas, falta de dispositivos de refrigeração, escassez na merenda escolar, a falta de recursos para a melhora estrutural das instalações das escolas, falta de transporte escolar gratuito, falta de materiais, recursos para melhora e adaptação dos prédios e salas, etc. No calor, isso é somado à desidratação, dores de cabeça, enjoo, indisposição e fadiga de estudantes e funcionários, que inviabilizam uma concentração qualitativa ao submeter nossos estudantes a verdadeiros fornos.

Na maioria das vezes, as instalações das escolas se erguem como maciços de concreto e ferro, com poucas áreas verdes e ambientes de repouso. Repletas de grades e muros altos, se mantém projetadas para que não sejam espaços de acolhimento e inclusão.

A superlotação das turmas em sala são decretadas pelas secretarias de educação que orientam as escolas a colocarem o máximo de estudantes no menor espaço possível, para que não tenham de ampliar as instalações e contratações. O caos é sintomático: não há quem consiga se manter atento e bem disposto numa sala pequena e abafada, com ventiladores velhos falhando, dividindo o ar quente com 30 ou 40 alunos.

Testemunhamos cotidianamente as crianças passando mal e diante disso as aulas se tornam uma gestão paliativa do tempo até o tão esperado retorno para casa em detrimento dos conteúdos escolares. Buscamos contornar a situação degradante com aulas fora de sala de aula, mas nos deparamos com a infertilidade das instalações escolares sem qualquer planejamento de conforto térmico e circulação.

A degradação da rotina escolar se deve diretamente à falta de recursos e investimentos nas escolas com as quais já nos deparamos durante a pandemia. A privatização dos serviços públicos como vem tentando fazer o governo de Zema em Minas Gerais com a CEMIG e Copasa. Ou a martelada privatizadora do Tarcísio em São Paulo na educação com o governo ameaçando criar 33 escolas com parceria privada, e sua sanha incansável da privatização do metrô e da Sabesp. Ou no Rio de Janeiro com a CEDAE, companhia de água que foi privatizada ainda no governo golpista de Michel Temer, levando água contaminada para as torneiras da população fluminense. Esses governos reacionários submetem a população ao racionamento de água e luz, além de tarifas cada vez mais absurdas. E nas escolas essa realidade de extrema precarização da educação é agravada pela manutenção do Novo Ensino Médio, projeto mantido pelo governo Lula/Alckmin, que mantém um projeto neoliberal em que os estudantes e trabalhadores da educação são o alvo principal.

Não é apenas o calor. É a combinação de séculos de exploração ambiental capitalista com o sucateamento dos serviços básicos. É a crise climática global incidindo impiedosamente sobre as costas dos trabalhadores e população pobre que são obrigados a estudar e trabalhar em condições desumanas.

A política extrativista e de entrega dos recursos minerais a grandes mineradoras estrangeiras, não só abriu caminho para catástrofes naturais como os rompimentos de barragem em Brumadinho (2019) e Mariana (2015), que criaram uma ferida aberta de poluição aos rios e região, e assassinando centenas de pessoas como em Brumadinho que causou maior acidente de trabalho da história do Brasil e o segundo maior desastre industrial do século, como são parte da cruel equação que traz as temperaturas altíssimas como resultado.

De um lado, o governo de extrema direita de Zema busca flexibilizar as leis ambientais estaduais para garantir os lucros bilionários dos capitalistas nacionais e estrangeiros, e do outro lado, o governo de frente ampla de Lula abre as portas das reservas nacionais de lítio às mineradoras. A conivência e colaboração legislativa do governo Lula-Alckmin com a drenagem dos recursos naturais e humanos nos coloca diante a impossibilidade de combatermos a insanidade capitalista com a estratégia de suposta conciliação entre a classe operária e setores oprimidos com a classe burguesa e seu insaciável ímpeto espoliador.

Por isso, pensar na superação das condições de sucateamento das escolas passa necessariamente por questionar a política de conciliação de classes da frente ampla que governa junto aos mesmos setores que estão empenhados em rifar todos nossos direitos. É preciso combater profundamente a lógica de acumulação de capital, que permite com que os grandes tubarões da educação ditem os rumos da educação pública. O investimento das escolas devem ser geridas por quem de fato vive a rotina escolar, os professores e estudantes, em diálogo com a comunidade, promovendo a auto-organização desde as bases nas escolas.

Só uma alternativa com independência de classe, que alie os trabalhadores aos setores oprimidos pode de fato dar uma resposta ao cenário de profunda precariedade da educação contra a exploração sem limites dos recursos naturais e exploração cada vez mais brutal da classe trabalhadora e de todo povo pobre o oprimido pelo capitalismo, pelo racismo e o patriarcado.




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