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Crise energética na Europa | Fechamento do gasoduto Nord Stream e os impactos da guerra na Ucrânia

Na Rússia, como na Europa, espera-se atingir objetivos de guerra atacando as condições de vida das populações do outro campo. Após as sanções europeias, Putin fechou as válvulas de gás. A perspectiva de um inverno frio e de baixa atividade econômica reanima as rivalidades entre as potências no interior da Europa.

terça-feira 20 de setembro | Edição do dia

Desde junho, o principal gasoduto que liga a Rússia à Europa, o Nord Stream 1, está operando com apenas 20% de sua capacidade. A Gazprom explicou essa queda de fluxo por inúmeras avarias, como vazamentos, e manutenções prematuras que não enganaram muitas pessoas. No dia 2 de setembro, o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, levantou o véu: enquanto o "ocidente de conjunto" não estiver determinado a suspender as sanções comerciais contra a Rússia, a Gazprom suspenderá a maior parte de suas exportações de gás.

Por várias semanas, os líderes europeus estavam se preparando para esse efeito bumerangue de sua própria política de sanções. Depois de querer fazer uma "guerra total" para causar "o colapso da economia russa" nas palavras de Bruno Le Maire, os líderes europeus acusam hoje Putin de usar o gás como "arma de guerra". Em ambos os campos, esperam que os trabalhadores e as classes populares do outro bloco paguem o preço da guerra.

E Putin não introduziu essa medida do nada. Ele sabe que o outono e o inverno serão um período muito difícil para as classes trabalhadoras do continente europeu. A partir de 1 de outubro, explodirão as contas dos britânicos, data para a qual se chama um apelo ao boicote das contas de energia. Em Nápoles, na Itália, centenas de pessoas organizaram uma grande fogueira com suas contas de energia!

Mesmo antes deste anúncio do Kremlin, os preços da energia eram exorbitantes: os preços da eletricidade no atacado passaram de €85 por megawatt-hora há um ano para projeções de €1.000 para o próximo ano! Após a decisão de Putin de fechar as válvulas, o preço de referência do gás na Europa subiu 30%, chegando a €272 por megawatt-hora (em 26 de agosto, subiu para €345), em comparação com €70 antes da invasão da Ucrânia.

Mesmo as medidas específicas de Portugal e Espanha, a “exceção ibérica” negociada há um ano com Bruxelas, que consistem em desindexar os preços da eletricidade dos do gás, não surtiram efeito mágico. O preço médio do megawatt-hora em agosto na Espanha foi de 307,80 euros, mais 19,3% do que em julho (258,10 euros), tornando-se o mês mais caro desde o início dos registros, segundo dados do mercado elétrico ibérico. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos o preço do megawatt-hora era de US$137 em dezembro de 2021 e está em torno de US$146 em meados deste ano, segundo funcionários do governo norte-americano e com paridade quase igual entre o euro e o dólar.

Não é apenas a economia doméstica que está sob ataque neste cenário, a escassez de energia e os preços também começam a causar paralisações e redução da produção, demissões, suspensões e fechamentos em muitas fábricas.

A indústria europeia paralisada

Como relatou recentemente o The New York Times, a indústria europeia já sente o estrago da alta da energia. Na Arc International, gigante francesa produtora de louças de vidro (altamente dependente do uso de energia), colocou 1/3 dos 4.500 funcionários em licença e quatro das nove fornalhas da fábrica serão paralisadas.

Produtores de metais, papel, fertilizantes e outros produtos que dependem de gás e eletricidade vem descarregando a crise emergente em cima da força de trabalho e dos consumidores. Metade da produção de alumínio e de zinco na Europa foi paralisada. A Arcelor Mittal, maior siderúrgica da Europa, está paralisando seus fornos na Alemanha. A Alcoa, uma produtora global de produtos de alumínio, está cortando um terço da produção em sua fundição na Noruega. Na Holanda, a Nyrstar, maior produtora de zinco do mundo, está pausando a produção.

Se os líderes russos desejam enfraquecer seus oponentes atingindo sua população, eles também esperam jogar nas divisões internas do bloco europeu. Os países da União Européia são 40% dependentes do gás russo, mas essa dependência é mais acentuada para alguns países como a Alemanha. Apesar das importações de fontes alternativas de GNL, permanece um déficit de 20% dos recursos de gás para os países europeus. É, portanto, necessário encontrar novas fontes de abastecimento e forjar novas infraestruturas, uma vez que a existente é construída para um abastecimento proveniente da Rússia. E as formas de resolver esse problema para os estados europeus, bem como o retorno do militarismo alemão à tona, poderiam redistribuir as cartas dentro da União Europeia.

MidCat, o gasoduto que deve ligar a França à Espanha… mas que divide os Estados europeus

A Alemanha deve repensar o abastecimento de gás de que tanto necessita para a produção de electricidade, tanto mais devido ao nível extremamente baixo dos seus rios neste verão, devido à seca que limitou o transporte de carvão para as suas termelétricas.

Uma das alternativas ao gás russo é o GNL (Gás Natural Liquefeito) que pode ser importado dos Estados Unidos, Catar ou Norte da África. Os estados europeus estão agora engajados em uma corrida para descobrir quem será a porta de entrada e, portanto, o hub do abastecimento de gás europeu, uma posição altamente estratégica.

A França espera desempenhar esse papel e atribui grande importância à rápida instalação de um terminal de GNL em Le Havre, embora já tenha uma planta de regaseificação em Fos-sur-Mer, e possa redistribuir as importações de gás da Noruega.

Mas a Espanha também pode sair na frente, considerada uma “ilha de gás”, o estado espanhol possui 7 usinas de regaseificação, que produziriam 35% da demanda europeia de GNL. Mas sofre de uma falta crónica de ligações a outros países europeus (é também por isso que a Comissão Europeia permitiu que Espanha e Portugal derrogassem as regras de fixação dos preços da energia). Para resolver este problema, líderes portugueses, espanhóis e alemães tiraram da caixa um projeto do início dos anos 2000, o gasoduto “MidCat”. Este gasoduto poderia superar a França e dobrar a capacidade de exportação de gás da Espanha.

O projeto enfrenta a clara recusa de Macron e dos ministros franceses, que hipocritamente argumentam que seria um investimento em uma energia fóssil como o gás, o que seria uma questão a abandonar. De forma não menos hipócrita, Olaf Scholz acredita que essa infraestrutura poderá eventualmente ser utilizada para o “hidrogênio verde”. Quando o argumento ecológico não é suficiente para resolver os problemas geoestratégicos, voltamos a falar de números: demasiado caro para a França, vários anos de trabalho e pelo menos 3 bilhões de euros, enquanto na Espanha estima-se que o gasoduto poderá ser construído em menos de um ano e custa apenas 300 milhões de euros. Segundo Macron, a construção de terminais de GNL no norte e leste da Europa seria mais econômica.

Olaf Scholz está muito interessado em concretizar este projeto. Portugal, Espanha e Alemanha estariam mesmo dispostos, face à recusa da França, a dar continuidade ao projeto construindo um gasoduto submarino que ligaria Espanha à Itália. Mas a França não está disposta a ceder à Espanha ou a Portugal o seu papel de porta de entrada comercial do gás (como de muitos outros bens) com o Norte de África.

A insistência alemã e o seu apoio ao fortalecimento da Península Ibérica devem também ser entendidos no quadro de uma aproximação estratégica com o Norte de África. De fato, a diplomacia entre Berlim e a ditadura marroquina está passando por um período de aquecimento, e em Marrocos como na Argélia, a Alemanha quer promover a produção de hidrogênio verde. Mas para a França, toda a política no Mediterrâneo e no Norte de África deve ser gerida por Paris, e não por Berlim.

Uma disputa sobre energia verde que também não aproxima as duas principais potências da UE. Mesmo que Macron tenha convencido os alemães a manter duas de suas três usinas nucleares de prontidão durante o inverno, a vontade alemã de romper com a energia nuclear prejudica seriamente os interesses de um país cuja segurança energética e militar gira em torno da energia.

O encerramento do Nord Stream escureceu o próximo outono e inverno da UE, mas também trouxe à tona, talvez da forma mais visível no período recente da Europa, as contradições que existem entre as potências imperialistas, neste caso entre Berlim e Paris.




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